quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Lençóis


Abraça violentamente a almofada como se a pudesse sufocar. O lábio gordo mordido verte sangue escuro que lhe mancha os dentes como tinta vermelha numa tela branca. O corpo quente sua à luz das velas quase extintas. As gotas salgadas escorrem pela pele nua como chuva numa janela de um quarto fechado. Agora, os dedos dos pés contorcidos embrenham-se nos lençóis ensopados enquanto as unhas pintadas de vermelho das suas mãos finas se cravam na pele dura das costas musculadas dele. Os lábios confidenciam-lhe ao ouvido um desejo carnal conhecido. Palavras trazidas por um vento atrevido, que abrasa o pescoço e lhe faz tombar o queixo, abrindo um sorriso. Encolhe os ombros e afasta-o meigamente com a cara. As mãos cravadas largam as costas para suportar o seu próprio peso na cama. Afunda-se nos lençóis e perde-se neles. Assim sonhou ela.