quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

Silêncio


                


            Um dia percebi que o silêncio define a relação que temos com as pessoas. Se for inconfortável, difícil, em que buscamos forçosamente palavras apressadas para que este não mais se abate sobre nós – não estamos à vontade com essa pessoa. Se este for leve, facilmente aceite, apreciado, como se não fossem necessárias palavras para encher o espaço, esse, é o melhor silêncio. Adoro partilhar este último silêncio, como se fosse uma compreensão sem palavras. Os melhores momentos não requerem palavras. Os mais fortes sentimentos são sentidos e não têm a necessidade de serem declarados, são sentimentos calados e às vezes as palavras chegam a estragar – o silêncio.
                Talvez o silêncio diga mais qualquer coisa.  

domingo, 2 de dezembro de 2012

Fado de Guerra


           Foi-nos pedido que escrevêssemos um pequeno texto, como se fosse escrito por um português nos anos 40 em Lisboa aquando a chegada dos refugiados. Este trabalho advém da visualização do filme Fantasia Lusitana de João Canijo. Espero que apreciem.



            Os braços trémulos desistem e as malas caem ruidosamente na calçada, de tão pesadas que estão. Mais do que roupa, trazem vidas inteiras que, agora, cabem dentro de uma mala de cabedal. Os sorrisos frágeis e contidos revelam um suspiro de encontrar um descanso de balas e explosões que os fizeram chegar até aqui. Lisboa acolhe um povo de olhar triste, profundo, que se nos enterra na alma quando encontra o nosso distraidamente, no meio da confusão. Fazem filas intermináveis, buscando uma outra vida no outro lado do mar. São tantos que temo não ter um número, chegam e partem e mesmo assim a fila persiste. A língua nos cafés já não é portuguesa, os seus donos recebem calorosamente os clientes que preferem pagar para receber notícias a gastar em comida. Preferem a fome à ignorância. E o português é um povo tão gordo e feliz que recebe este povo desterrado com sorrisos rasgados, entre cantigas e braços abertos, demasiado abertos, ostentando o peito orgulhosamente, como que indicando um sítio onde se pudesse chorar. Ignoram as sirenes que anunciam os depravados exercícios de socorro, como uma brincadeira maliciosa que nos prega sustos com a sua falsa veracidade. Mas até quando será mentira? “Estão a salvo!” Ouvi eu gritar no porto esta manhã enquanto mais um navio aportava e uma multidão com roupa gasta punha pé em Portugal. Se o estão, porque é que ainda têm vontade de fugir?
Uma das qualidades que nos distingue dos outros animais é a capacidade de conscientemente controlar a respiração. Encher os pulmões de ar e suster o fôlego antes de um mergulho. O peito fica cheio, as bochechas ovais e os olhos tentam adivinhar por quanto mais tempo teremos que aguentar. Penso que o português está no seu mergulho, com o peito inchado de ar e um sorriso que disfarça a pressão do ar que quer sair sob um grito desesperante. A guerra chega-nos pelos jornais que limitam a tragédia em números. Chega-nos pelo choro desesperante de homens rendidos. Chega-nos pela mão suja e pendente junto às malas carregadas, que quando tem a sorte de agarrar alguém partilha a ânsia de um abraço apertado.
Mas Lisboa celebra.     
                Como uma flor intocada pelo fogo numa floresta devastada por um incêndio, ela se torna na mais bonita flor da floresta. Lisboa está em festa, o Casino do Estoril apenhado de gente que trouxe mais do que algumas malas pesadas e organiza-se uma Exposição de orgulho português. A felicidade estampada nas ignorantes faces rudes de um povo que recorda o seu Império além-mar assusta aquele povo de malas feitas. Assusta porque como pode uma flor regozijar perante a floresta ardida? Adora-se Fátima, joga-se futebol e canta-se o Fado, canção que é destino. Que se cantará amanhã?
                As sirenes soam novamente. 





sábado, 24 de novembro de 2012

Olhei para trás

Tentei escrever um pequeno texto em que conjugava o Presente e o Passado e o Futuro em culminação. Espero que gostem.

Quando cresci vi o que deixei para trás. As oportunidades perdidas, os gestos deixados a meio por medo de perder o que não tinha, mas mais era o medo de conseguir, de ter sucesso. Olhei para trás e vi o medo de viver, o respirar encolhido, os braços perto do corpo tentando suportar o seu peso perante o mundo. Olhei para trás e escutei o grito que não foi dado, o tecido que não foi rasgado por contenção, o bater de porta não dado por medo do que vinha a seguir. Olhei para trás e vi o que não foi e o que poderia ter sido, o sonho esquecido num viver aborrecido, monótono, parado e suspenso no dia-a-dia, que qual ampulheta me sugava a esperança com um grão de cada vez. Tentei virá-la ao contrário, mas ela apenas escorria pelas minhas mãos sem amparo. Olhei para trás e olhei-me ao espelho. Era eu. Fui eu. Serei eu?

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Pequeno Queixinhas

Foi-nos pedido que escrevêssemos uma fábula em poucos minutos. Espero que gostem. 




Agarrado ao cobertor, o Pequeno Coelho tentava aquecer as patas à beira do pequeno fogo que ardia na sua toca e, quase deixando queimar o cobertor, esticou as patas na direcção das chamas. A porta abriu-se e o Pai Coelho entrou carregando nas suas fortes patas mais lenha para a fogueira. Entregou alguns paus ao lume, que os devorou com avidez, reclamando com as suas chamas brilhantes por mais. A Mãe Coelho chegou com chá quente, de ervas apanhadas por ela mesma. O Pequeno bebeu e exclamou:

 - Está mesmo frio, o chá está morno e nada quente! Que chá é este que nem quente está? - Perguntou rudemente o Pequeno Coelho. Ao qual a Mãe Coelho respondeu: 
- Foi acabado de sair do lume, minha bola de pêlo castanho. - Mas o Pequeno continuou:
- E o lume arde mas não aquece nada, as minhas patas estão geladas, o cobertor parece neve! - Então o Pai Coelho, farto das queixas do filho, irrompeu:
- Se estás com tanto frio precisas de te aquecer... - Serenamente pegou no filho, que deixou cair o cobertor e o chá no chão da toca. Sem dizer uma palavra abriu a porta de casa e pouso o Pequeno Coelho na rua, e então disse:
- Ficas aí um bocadinho que eu vou aquecer a casa ao gosto do meu Pequeno. - O frio entrava pelo seu casaco de peles castanho trazido pelo vento forte da noite de Inverno. Nevava lá fora e as suas patas tocaram na neve, sentindo de imediato o chão gelado. Não se mexeu durante minutos. Os dentes começaram a bater e todo o seu corpo tremia quando o Pai Coelho lhe abriu a porta. A toca estava a escaldar quando as suas orelhas regeladas entraram. 

sábado, 27 de outubro de 2012

Virgílio e Joaquim


Foi-nos pedido que escrevêssemos um texto descritivo com base em duas fotografias. Baseei-me na que foi mencionada anteriormente e daí decorrer com a história. Irei pôr, assim que possível, a segunda foto online. Espero que gostem:


A cabeça pesava-lhe e o pescoço cedia. A vista cansada pedia os óculos que lhe assentavam na testa. Mas o esforço para ler não se igualava ao de escrever. Não gostava de palavras forçadas. Os inúmeros livros que o rodeavam continham histórias, algumas escritas por ele e, agora, escrevia mais uma. A dor da solidão assolava-o, distraía-o e insistia em não o deixar escrever. Agora, mais do que nunca, precisava de escrever. O seu último capítulo de vida estava a ser escrito e a necessidade de que fosse lido era vital. Esta seria a última obra, as forças já o abandonavam para conseguir sequer pensar em outra história, tinha a certeza. Era importante, que cada palavra fosse a certa, que todo o texto fosse lido como um poema, que desse a provar à língua uma degustação verbal, que lhe desse gosto e que a mente se envolvesse na história e se embebedasse com parágrafos corridos por olhos sedentos.
A caneta não se movia.
A pressão entorpecia-lhe os dedos, que agarrando a caneta com força suficiente para a partir, não desenhavam as letras por falta de ideias. Estava parado a olhar para uma frase incompleta – “Sentado num muro alto, contemplava o mundo à sua volta…”. Talvez também Virgílio parara para comtemplar, não o seu mundo mas a sua vida. Dera início a uma história de autodescoberta, porém agora constatava que pouco sabia de si mesmo. Com tantas primaveras passadas com a caneta entre os dedos tinha-se entregue a contar a vida de pessoas que habitavam na sua imaginação. Perdera-se na invenção, na fantasia, na irrealidade que tomava forma sob palavras desenhadas por aqueles dedos que agora mesmo estavam parados. Joaquim, a personagem principal daquela sua última história era ele mesmo com feições que lhe assentavam tão bem como qualquer outra máscara. Viu-o, na sua mente, a sorrir-lhe ironicamente, com os seus olhos profundamente negros e o seu cabelo liso castanho a tapar as orelhas demasiado grandes. Vestido aprimoradamente, tinha a mão esquerda no bolso do blazer castanho e a outra a apertar a gravata preta no pescoço. A boca mexeu-se para o cumprimentar alegremente. Um Olá vividamente bem-disposto, como se cumprimentasse algum ente querido há muito desaparecido.
Virgílio sorriu.
Os dedos mexeram-se e continuaram a frase “…, fechou os olhos e ouviu o que o mundo lhe tinha para dizer. Não havia silêncio, era uma conversa, onde o vento e as suas árvores e os seus pássaros, cães e outros mamíferos participavam. Não estava sozinho.” Mas estava. Joaquim estava sozinho na sua mente, no seu sorriso, no seu cumprimento sem resposta. Virgílio sabia-o, sentia-o, e os dedos pararam outra vez. A dor percorreu-lhe o peito até aos dedos. Seria por isso que diziam que era o coração que transportava o amor e a dor? Estático, lembrou-se mais uma vez do vazio daquela enorme casa, das sombras de gargalhadas de crianças que nunca chegaram a percorrer os corredores aos saltos de brincadeiras tolas; do vazio do que poderia ter sido mas não foi.
 A tinta ainda húmida arrastou-se pelo papel, borratando a página, com o sal de lágrimas pesadas que caíam de olhos abertos. Virgílio não estava a olhar para o papel, não via as palavras arruinadas, não via o fruto da sua tristeza. Virgílio mirava o rosto obtuso de Joaquim. Este chamou-o e envolveu-o num abraço quente. Sentiu-o, com força.




quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Descrever um escritor


Foi-nos pedido que escrevêssemos uma descrição de uma fotografia (também aleatória), que fossemos para além da imagem. Foi esta que me calhou (peço desculpa pelo descuido com a imagem):



A cabeça pesava-lhe e o pescoço cedia. A vista cansada pedia os óculos que lhe assentavam na testa. Mas o esforço para ler não se igualava ao de escrever. Não gostava de palavras forçadas. Os inúmeros livros que o rodeavam continham histórias, algumas escritas por ele e, agora, escrevia mais uma. A dor da solidão assolava-o, distraía-o e insistia em não o deixar escrever. Agora, mais do que nunca, precisava de escrever. O seu próprio último capítulo de vida estava a ser escrito e a necessidade de que fosse lido era vital. 

Biografia e Carta

Escolhendo aleatoriamente duas fotografias foi-nos pedido que criássemos uma biografia (para uma) e um carta (da segunda fotografia para a primeira). Escolhi a fotografia de baixo para a biografia.


Biografia

A vida denunciou-se pelos berros que esforçavam, e faziam funcionar pela primeira vez, as cordas vocais da pequena bebé. A face enrugada e vermelha exclamava o rude impacto de respirar um ar pesado de apreensão. A gravidez fora complicada devido à idade avançada daquela que agora desfrutava do alívio pós-parto, livre de drogas e cheio de dor. Lágrimas escorreram pela face da agora mãe pela quarta vez. Até hoje não sabe por que razão chorava ao ver os seus filhos, se pela dor do parto se pela emoção de os ver pela primeira vez. Pegou na bebé com os seus braços trémulos e segredou-lhe o nome. Era algo bonito e simples – Ana. O pai esperava lá fora, olhando para o relógio, sofrendo por cada segundo de espera, aguardando com outros três pequenos irrequietos. Mais tarde, os registos mostravam que nascera no dia 1 de Dezembro de 1940 no Hospital de Bragança. Um berro de vida num mundo pestilento de guerra e morte.
                Os bebés são todos iguais, choram e fazem necessidades, mas os pequenos movimentos, olhares e expressões fazem-nos as criaturas mais fofas. Ana não era excepção, a não ser a particularidade de chorar mais do que todos os seus irmãos juntos na sua idade. Não era um choro de atenção ou fragilidade mas sim um de indignação. Parecia que estava farta de ser bebé, de ter os membros encurtados e de não se poder mexer à vontade. E daí tentava, debatendo-se com o berço e adormecendo nas posições mais caricatas. Era também uma bebé que sabia rir, mas quando se lhe fazia caretas ficava mais uma vez indignada, encarando-o como um insulto à sua condição de bebé.
                Ana crescera como a mais nova da família Vale. Como tal, era a princesa da família e todos a queriam. Mas não se pense que tal tratamento próprio da sua condição de filha mais nova lhe adocicou a vida. Os mimos não a fizeram mais doce, mas sim mais atrevida. O choro transformara-se em palavras, e palavras em discurso. Aprendeu as letras com ferocidade e concentrou-se nos estudos. A família não era muito abastada, mas o pai engenheiro mecânico sempre apoiou a educação dos seus filhos, em particular Ana, que demonstrava peculiar interesse no conhecimento. Aprendera a ser eloquente, a dominar as palavras e o gosto em as usar correctamente. Distinguiu-se no Português e em História. Mudou-se para o Porto, onde acabaria os estudos liceais. O prazer de ler e de falar deu-lhe força para seguir Direito em Coimbra, aonde poucas mulheres se tinham atrevido entrar. Ana Vale tomou a sua instrução como um prazeroso passeio domingueiro, pegando nos livros de estudos como se fossem pequenas histórias para se ler na sombra de uma árvore nalgum jardim. Foi aluna de menções honrosas e licenciou-se com um sorriso na cara. A mãe falecera pouco tempo depois devido a uma doença pulmonar e não chegara a ver a sua filha mais nova a exercer a sua profissão de sonho. A tristeza só lhe dera maior motivação para defender os mais desprotegidos e chegou a representar grandes casos, aonde o pequeno enfrentava o grande. Por tal devoção os bolsos não encheram, mas a felicidade do sentimento de dever cumprido foram suficientes para lhe alimentar a alma.
                A sua profissão ocupava-lhe todo o tempo, era a sua vida. Isto até ao dia em que conheceu João Castro numa ida ao cinema, de nome simples e rosto simpático. Um homem honesto, de carácter forte mas com um sorriso fácil que tornava o seu trabalho exigente de médico-cirurgião numa coisa leve. Nunca o James Bond fizera tanto sentido, “Viver e deixe morrer” ficaria eternamente gravado nas suas alianças um ano mais tarde. E viver foi o que eles fizeram, dando mais uma vida a este mundo meses mais tarde. Com trinta e quatro anos Ana era casada e mãe de uma linda menina de nome Margarida. Então a vida era ocupada mas simples. O pai, reformado, tornara-se num avô babado e viajara até Lisboa, aonde agora a família Castro residia, para ajudar com a pequena. Os anos passaram-se e a velhice deu sinais. A despedida do pai foi dolorosa, o seu abraço fez falta. Margarida cresceu e constituiu família, e desta vez era Ana, a nossa pequena Ana, que era avó.      


Carta


                É com saudade que te escrevo avó.

                Sei que a tua vida foi cheia e a minha agora ainda está agora a começar. Estou nervosa, sinto o coração a bater e os dedos a tremer cada vez que penso em partir. Sei que devo ser forte, como tu foste. Mas é-me tão difícil controlar os pensamentos que me questionam sobre o que me espera. E eu não sei. Acho que é isso, a aventura. Mas eu não sou de aventuras avó, quer dizer, fui eu que quis ir, mas agora que estou a um passo de me meter no avião… Estou com medo de voar. Ensinas-me a voar? Quero não ter medo, quero apenas esticar os braços e sentir o vento na minha cara e desfrutar o voo. Mas só o consigo fazer de olhos fechados, porque se os abro eu caio avó. Eu caio. E estas vertigens estão escondidas, só contigo partilho o meu medo, porque sei que não me vais deixar cair. Sei que devo encarar isto como um novo começo, uma nova vida. E se eu quiser continuar a ter a minha vida, os meus amigos, a minha cama, ai a minha cama... Vou deixar tudo para trás. Por mais que me digam que nada se apaga, sinto que estou a apagar cada bocadinho do que eu sou aqui em Portugal quando puser os pés naquele maldito avião. Sinto que te vou deixar, acima de tudo, a ti. As nossas conversas no jardim que tanto gostas, os teus chás e bolachas com manteiga, a tua gargalhada frente à TV, vou deixar isso tudo e de ouvir o teu “boa noite” que tanto me ajuda adormecer. Dizem que é crescer. Eu não quero deixar para trás a criança que sou, porque essa criança tem a melhor avó que alguém pode desejar…
Talvez não te peça um conselho, assim apenas que me leias por um pouco, talvez te deixe um bocadinho de mim com estas palavras, já cheias de saudade.

Um xi,
Guida. 

Cronicologia

Venho por este meio criar um blog que sirva como um depositar de exercícios de escrita e que sirvam o propósito de quiçá inspirar alguém a fazer os mesmos.   Estou a frequentar a licenciatura de Ciências da Comunicação na Universidade do Algarve, Portugal, e alguns dos exercícios aqui expostos vão ter por base os exercícios feitos nas aulas da Unidade Curricular Oficina de Escrita Criativa, leccionada pela Docente Isabel Rosa Dias . Irão também ser complementados por exercícios e textos de minha autoria.