Escolhendo aleatoriamente duas fotografias foi-nos pedido que criássemos uma biografia (para uma) e um carta (da segunda fotografia para a primeira). Escolhi a fotografia de baixo para a biografia.
Biografia
A vida
denunciou-se pelos berros que esforçavam, e faziam funcionar pela primeira vez,
as cordas vocais da pequena bebé. A face enrugada e vermelha exclamava o rude
impacto de respirar um ar pesado de apreensão. A gravidez fora complicada devido
à idade avançada daquela que agora desfrutava do alívio pós-parto, livre de
drogas e cheio de dor. Lágrimas escorreram pela face da agora mãe pela quarta
vez. Até hoje não sabe por que razão chorava ao ver os seus filhos, se pela dor
do parto se pela emoção de os ver pela primeira vez. Pegou na bebé com os seus
braços trémulos e segredou-lhe o nome. Era algo bonito e simples – Ana. O pai
esperava lá fora, olhando para o relógio, sofrendo por cada segundo de espera,
aguardando com outros três pequenos irrequietos. Mais tarde, os registos
mostravam que nascera no dia 1 de Dezembro de 1940 no Hospital de Bragança. Um
berro de vida num mundo pestilento de guerra e morte.
Os
bebés são todos iguais, choram e fazem necessidades, mas os pequenos
movimentos, olhares e expressões fazem-nos as criaturas mais fofas. Ana não era
excepção, a não ser a particularidade de chorar mais do que todos os seus
irmãos juntos na sua idade. Não era um choro de atenção ou fragilidade mas sim
um de indignação. Parecia que estava farta de ser bebé, de ter os membros
encurtados e de não se poder mexer à vontade. E daí tentava, debatendo-se com o
berço e adormecendo nas posições mais caricatas. Era também uma bebé que sabia
rir, mas quando se lhe fazia caretas ficava mais uma vez indignada, encarando-o
como um insulto à sua condição de bebé.
Ana
crescera como a mais nova da família Vale. Como tal, era a princesa da família
e todos a queriam. Mas não se pense que tal tratamento próprio da sua condição
de filha mais nova lhe adocicou a vida. Os mimos não a fizeram mais doce, mas
sim mais atrevida. O choro transformara-se em palavras, e palavras em discurso.
Aprendeu as letras com ferocidade e concentrou-se nos estudos. A família não
era muito abastada, mas o pai engenheiro mecânico sempre apoiou a educação dos
seus filhos, em particular Ana, que demonstrava peculiar interesse no
conhecimento. Aprendera a ser eloquente, a dominar as palavras e o gosto em as
usar correctamente. Distinguiu-se no Português e em História. Mudou-se para o Porto,
onde acabaria os estudos liceais. O prazer de ler e de falar deu-lhe força para
seguir Direito em Coimbra, aonde poucas mulheres se tinham atrevido entrar. Ana
Vale tomou a sua instrução como um prazeroso passeio domingueiro, pegando nos
livros de estudos como se fossem pequenas histórias para se ler na sombra de
uma árvore nalgum jardim. Foi aluna de menções honrosas e licenciou-se com um
sorriso na cara. A mãe falecera pouco tempo depois devido a uma doença pulmonar
e não chegara a ver a sua filha mais nova a exercer a sua profissão de sonho. A
tristeza só lhe dera maior motivação para defender os mais desprotegidos e
chegou a representar grandes casos, aonde o pequeno enfrentava o grande. Por
tal devoção os bolsos não encheram, mas a felicidade do sentimento de dever
cumprido foram suficientes para lhe alimentar a alma.
A
sua profissão ocupava-lhe todo o tempo, era a sua vida. Isto até ao dia em que
conheceu João Castro numa ida ao cinema, de nome simples e rosto simpático. Um
homem honesto, de carácter forte mas com um sorriso fácil que tornava o seu
trabalho exigente de médico-cirurgião numa coisa leve. Nunca o James Bond
fizera tanto sentido, “Viver e deixe morrer” ficaria eternamente gravado nas
suas alianças um ano mais tarde. E viver foi o que eles fizeram, dando mais uma
vida a este mundo meses mais tarde. Com trinta e quatro anos Ana era casada e
mãe de uma linda menina de nome Margarida. Então a vida era ocupada mas
simples. O pai, reformado, tornara-se num avô babado e viajara até Lisboa, aonde
agora a família Castro residia, para ajudar com a pequena. Os anos passaram-se
e a velhice deu sinais. A despedida do pai foi dolorosa, o seu abraço fez
falta. Margarida cresceu e constituiu família, e desta vez era Ana, a nossa
pequena Ana, que era avó.
Carta
É
com saudade que te escrevo avó.
Sei
que a tua vida foi cheia e a minha agora ainda está agora a começar. Estou
nervosa, sinto o coração a bater e os dedos a tremer cada vez que penso em
partir. Sei que devo ser forte, como tu foste. Mas é-me tão difícil controlar
os pensamentos que me questionam sobre o que me espera. E eu não sei. Acho que
é isso, a aventura. Mas eu não sou de aventuras avó, quer dizer, fui eu que
quis ir, mas agora que estou a um passo de me meter no avião… Estou com medo de
voar. Ensinas-me a voar? Quero não ter medo, quero apenas esticar os braços e
sentir o vento na minha cara e desfrutar o voo. Mas só o consigo fazer de olhos
fechados, porque se os abro eu caio avó. Eu caio. E estas vertigens estão
escondidas, só contigo partilho o meu medo, porque sei que não me vais deixar
cair. Sei que devo encarar isto como um novo começo, uma nova vida. E se eu
quiser continuar a ter a minha vida, os meus amigos, a minha cama, ai a minha
cama... Vou deixar tudo para trás. Por mais que me digam que nada se apaga,
sinto que estou a apagar cada bocadinho do que eu sou aqui em Portugal quando
puser os pés naquele maldito avião. Sinto que te vou deixar, acima de tudo, a
ti. As nossas conversas no jardim que tanto gostas, os teus chás e bolachas com
manteiga, a tua gargalhada frente à TV, vou deixar isso tudo e de ouvir o teu
“boa noite” que tanto me ajuda adormecer. Dizem que é crescer. Eu não quero
deixar para trás a criança que sou, porque essa criança tem a melhor avó que
alguém pode desejar…
Talvez não te
peça um conselho, assim apenas que me leias por um pouco, talvez te deixe um
bocadinho de mim com estas palavras, já cheias de saudade.
Um xi,
Guida.