quinta-feira, 5 de junho de 2014

O meu Avô

Acorda de manhã bem cedo. A idade já não o deixa dormir uma noite inteira há já muitos anos. Agarra o colchão e senta-se na cama. Levanta-se com um suspiro que lhe esvazia os pulmões e vai à casa de banho. Urina de pé, apesar de uma fraca próstata que dificulta. Põe o aparelho auditivo no ouvido e arrasta o corpo até à cozinha onde prepara o pequeno-almoço para um. Os movimentos são tão naturais que nem pensa neles. Olha para a cadeira onde a Mulher se devia sentar. Devia, porque não devia ter partido numa noite como outra qualquer. A dor da saudade faz-lhe fechar o punho e os olhos. O silêncio morde mas é interrompido pelo abrir da porta do apartamento. O filho mais novo chega para o acompanhar no café com uma conversa matinal. Depois de arrumada a loiça vai até à sala. Senta-se numa poltrona e agarra os óculos e uma lupa. Também os olhos já estão cansados. Lê as notícias como quem já sabe o que vai ler. A história repete-se e só quem já a viveu o reconhece. Levanta-se com esforço, veste o casaco e calça uns sapatos confortáveis. Vai dar uma volta ao bairro. O chão irregular deixa-o sem folego nas subidas. Mas mexe-se, por obrigação. A Mulher é quem gostava de passear, para ele o conforto de casa era melhor que o esforço de sair. A cidade mexe-se mais rápido do que os seus passos, mas não tem pressa. Passa pela padaria e compra uma broa de milho. Uma das coisas que a sua placa dentária ainda pode morder sem o afligir. Chega a casa e descalça-se, os pés inchados sentem a alcatifa com saudade. Senta-se na poltrona e liga a televisão. Nada de interessante.