segunda-feira, 15 de abril de 2013

Sobre Mim

Foi-nos pedido em Projecto Multimédia que redigisse-mos um texto com o tema "Sobre Mim". Foi isto que enviei:


Nasci feio. O choro não ajudou tão pouco. Nem sei como não fui abandonado. Cresci com o som das máquinas de escrever e das disquetes em DOS. Joguei ao Prince e dancei ao Prince. Tirei o curso de Línguas e Relações Internacionais e aprendi a dizer asneiras em várias línguas. Trabalhei para comer e trabalhei para comprar tralha. Estou a tirar o curso de Ciências da Comunicação para aprender a dizer asneiras na Rádio e na Televisão, sem esquecer o Jornal e os Sítios web.
Gosto de mim, gordo ou magro, sou giro, a minha mãe confirma a quem duvidar. Quando era pequeno queria ser polícia quando fosse grande, mas nunca passei de um metro e setenta.  Gosto de coisas bem-feitas, de coisas e de mulheres. Não gosto muito de política, porque penso que mentir não devia ser ciência. Não gosto de guerra, porque acho que quem zanga devia pedir desculpa, não matar. Sou ateu desde que nasci mas acredito no poder placebo da religião. Não temo Deus, temo a minha consciência. Gosto de ler e coisas cultas, como jogar às damas e fumar cachimbo. Gosto de ver filmes e comer pipocas. Gosto de comer pipocas sem filmes e gosto de pipocas, pipocas. Encontro piada ao nome pipoca, é fofo. Também sou fofo. É quase tudo.

Escrito por Guilherme Costa, número mecanográfico 44879

terça-feira, 2 de abril de 2013

A fome de barriga cheia



A fome come em Portugal, com a avidez de um gordo rico que não limpa o queixo depois de comer. A fome come pobre, que não sabe ser pobre. Come gente que sempre teve que comer, que só agora sabe o que é uma barriga vazia. Que só agora sabe que a sopa dura dias e que nem sempre tem que ter batata. Esta fome não é porém barata. Esta fome custa. Custa o emprego, custa a casa e o carro. Esta fome come barrigas e bolsos, faz apertar o cinto e sufoca a garganta. Esta fome esconde-se com o orgulho trémulo de quem ainda tem a memória de um dia melhor. Esconde-se atrás de números desumanos e estatísticas brutas, esconde-se porque nem a queremos ver. Esta fome come melhor que muita gente.