quarta-feira, 26 de março de 2014

Sed Praxis



As vozes de comando preenchem os campos cheios de burros com orelhas de papel. Bestas que olham para o chão com cara que de quem não gosta da erva aos seus pés. São dispostos em filas para melhor ordenar este bando de animais temerosos. Os berros dos seus amos são severamente altos e começam a ficar roucos e, por isso, começam a recorrer a palavras fortes e rudes, para compensar a falta de voz na sua autoridade afirmada pelos anos passados naquela instituição. Dura Praxis, Sed Praxis – Não se pense que aquele que procura o conhecimento, ordinariamente apelidado de estudante, se vê livre de um tratamento militarizadamente próximo daqueles que procuram combater. Porque ser estudante é uma luta contra a ignorância e é preciso saber-se defender-se desta. Defender não, olhar para o chão enquanto uma voz experiente e claramente sábia desafia o nosso pensamento crítico e o nosso juízo de valores. A humilhação faz aprender que são todos iguais, se tiveres orelhas de papel pelo menos. Conhece-se novos amigos, que de outra maneira não seria a mesma coisa. Todos foram para casa a cheirar mal e deitar roupa fora, todos passaram pelo mesmo. Todas as pessoas que passam por algo mau juntas ficam amigas, toda a gente sabe isso. Perguntem a todos os sobreviventes de aviação, assassinato e exterminação e dir-vos-ão o mesmo. Os jantares de joelhos ou a comer com as mãos ensinam que a higiene é para ser levada a sério. Isto mesmo quando elas estão cobertas de sabe-se lá do quê. Mas é divertido. É tempo de experimentar a liberdade total e condicionada à vontade dos gritos. Fazer coisas que de outro jeito não se teria desculpa para fazer. Fomenta a liberdade de espírito, desde que se olhe para o chão e se faça o que se lhe é mandado. Mas é divertido. Não são os choros de crianças mimadas que não sabem baixar as orelhas, as insolentes bestas que se negam uma ordem ou a indecência humana que fazem com que este ritual deixe de ser divertido. Porque as memórias contam uma história diferente. Alguns dizem que têm saudades e outros não se esqueceram. Mas conhecem-se pessoas. De outro modo ninguém se falava. Pois estar numa fila, fazer jogos porcos e estar sujeito à humilhação disfarçada de brincadeira nunca poderia ser melhor que jantares sentados com faca e garfo. O convívio é muito melhor assim. Tenho a certeza. Qual seria o propósito de gritar com gente inocentemente ignorante deste universo académico, como se expressaria a minha frustração perante gente nova?  Se eu não gritar, quem gritará? 

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