quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Biografia e Carta

Escolhendo aleatoriamente duas fotografias foi-nos pedido que criássemos uma biografia (para uma) e um carta (da segunda fotografia para a primeira). Escolhi a fotografia de baixo para a biografia.


Biografia

A vida denunciou-se pelos berros que esforçavam, e faziam funcionar pela primeira vez, as cordas vocais da pequena bebé. A face enrugada e vermelha exclamava o rude impacto de respirar um ar pesado de apreensão. A gravidez fora complicada devido à idade avançada daquela que agora desfrutava do alívio pós-parto, livre de drogas e cheio de dor. Lágrimas escorreram pela face da agora mãe pela quarta vez. Até hoje não sabe por que razão chorava ao ver os seus filhos, se pela dor do parto se pela emoção de os ver pela primeira vez. Pegou na bebé com os seus braços trémulos e segredou-lhe o nome. Era algo bonito e simples – Ana. O pai esperava lá fora, olhando para o relógio, sofrendo por cada segundo de espera, aguardando com outros três pequenos irrequietos. Mais tarde, os registos mostravam que nascera no dia 1 de Dezembro de 1940 no Hospital de Bragança. Um berro de vida num mundo pestilento de guerra e morte.
                Os bebés são todos iguais, choram e fazem necessidades, mas os pequenos movimentos, olhares e expressões fazem-nos as criaturas mais fofas. Ana não era excepção, a não ser a particularidade de chorar mais do que todos os seus irmãos juntos na sua idade. Não era um choro de atenção ou fragilidade mas sim um de indignação. Parecia que estava farta de ser bebé, de ter os membros encurtados e de não se poder mexer à vontade. E daí tentava, debatendo-se com o berço e adormecendo nas posições mais caricatas. Era também uma bebé que sabia rir, mas quando se lhe fazia caretas ficava mais uma vez indignada, encarando-o como um insulto à sua condição de bebé.
                Ana crescera como a mais nova da família Vale. Como tal, era a princesa da família e todos a queriam. Mas não se pense que tal tratamento próprio da sua condição de filha mais nova lhe adocicou a vida. Os mimos não a fizeram mais doce, mas sim mais atrevida. O choro transformara-se em palavras, e palavras em discurso. Aprendeu as letras com ferocidade e concentrou-se nos estudos. A família não era muito abastada, mas o pai engenheiro mecânico sempre apoiou a educação dos seus filhos, em particular Ana, que demonstrava peculiar interesse no conhecimento. Aprendera a ser eloquente, a dominar as palavras e o gosto em as usar correctamente. Distinguiu-se no Português e em História. Mudou-se para o Porto, onde acabaria os estudos liceais. O prazer de ler e de falar deu-lhe força para seguir Direito em Coimbra, aonde poucas mulheres se tinham atrevido entrar. Ana Vale tomou a sua instrução como um prazeroso passeio domingueiro, pegando nos livros de estudos como se fossem pequenas histórias para se ler na sombra de uma árvore nalgum jardim. Foi aluna de menções honrosas e licenciou-se com um sorriso na cara. A mãe falecera pouco tempo depois devido a uma doença pulmonar e não chegara a ver a sua filha mais nova a exercer a sua profissão de sonho. A tristeza só lhe dera maior motivação para defender os mais desprotegidos e chegou a representar grandes casos, aonde o pequeno enfrentava o grande. Por tal devoção os bolsos não encheram, mas a felicidade do sentimento de dever cumprido foram suficientes para lhe alimentar a alma.
                A sua profissão ocupava-lhe todo o tempo, era a sua vida. Isto até ao dia em que conheceu João Castro numa ida ao cinema, de nome simples e rosto simpático. Um homem honesto, de carácter forte mas com um sorriso fácil que tornava o seu trabalho exigente de médico-cirurgião numa coisa leve. Nunca o James Bond fizera tanto sentido, “Viver e deixe morrer” ficaria eternamente gravado nas suas alianças um ano mais tarde. E viver foi o que eles fizeram, dando mais uma vida a este mundo meses mais tarde. Com trinta e quatro anos Ana era casada e mãe de uma linda menina de nome Margarida. Então a vida era ocupada mas simples. O pai, reformado, tornara-se num avô babado e viajara até Lisboa, aonde agora a família Castro residia, para ajudar com a pequena. Os anos passaram-se e a velhice deu sinais. A despedida do pai foi dolorosa, o seu abraço fez falta. Margarida cresceu e constituiu família, e desta vez era Ana, a nossa pequena Ana, que era avó.      


Carta


                É com saudade que te escrevo avó.

                Sei que a tua vida foi cheia e a minha agora ainda está agora a começar. Estou nervosa, sinto o coração a bater e os dedos a tremer cada vez que penso em partir. Sei que devo ser forte, como tu foste. Mas é-me tão difícil controlar os pensamentos que me questionam sobre o que me espera. E eu não sei. Acho que é isso, a aventura. Mas eu não sou de aventuras avó, quer dizer, fui eu que quis ir, mas agora que estou a um passo de me meter no avião… Estou com medo de voar. Ensinas-me a voar? Quero não ter medo, quero apenas esticar os braços e sentir o vento na minha cara e desfrutar o voo. Mas só o consigo fazer de olhos fechados, porque se os abro eu caio avó. Eu caio. E estas vertigens estão escondidas, só contigo partilho o meu medo, porque sei que não me vais deixar cair. Sei que devo encarar isto como um novo começo, uma nova vida. E se eu quiser continuar a ter a minha vida, os meus amigos, a minha cama, ai a minha cama... Vou deixar tudo para trás. Por mais que me digam que nada se apaga, sinto que estou a apagar cada bocadinho do que eu sou aqui em Portugal quando puser os pés naquele maldito avião. Sinto que te vou deixar, acima de tudo, a ti. As nossas conversas no jardim que tanto gostas, os teus chás e bolachas com manteiga, a tua gargalhada frente à TV, vou deixar isso tudo e de ouvir o teu “boa noite” que tanto me ajuda adormecer. Dizem que é crescer. Eu não quero deixar para trás a criança que sou, porque essa criança tem a melhor avó que alguém pode desejar…
Talvez não te peça um conselho, assim apenas que me leias por um pouco, talvez te deixe um bocadinho de mim com estas palavras, já cheias de saudade.

Um xi,
Guida. 

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