Quando cresci
vi o que deixei para trás. As oportunidades perdidas, os gestos deixados a meio
por medo de perder o que não tinha, mas mais era o medo de conseguir, de ter
sucesso. Olhei para trás e vi o medo de viver, o respirar encolhido, os braços
perto do corpo tentando suportar o seu peso perante o mundo. Olhei para trás e
escutei o grito que não foi dado, o tecido que não foi rasgado por contenção, o
bater de porta não dado por medo do que vinha a seguir. Olhei para trás e vi o
que não foi e o que poderia ter sido, o sonho esquecido num viver aborrecido,
monótono, parado e suspenso no dia-a-dia, que qual ampulheta me sugava a
esperança com um grão de cada vez. Tentei virá-la ao contrário, mas ela apenas
escorria pelas minhas mãos sem amparo. Olhei para trás e olhei-me ao espelho.
Era eu. Fui eu. Serei eu?

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